COLABORAÇÕES
Cilmar Machado

A PAIXÃO DE MARINA

Marina, quando aos 20 anos, experimentou uma intensa e avassaladora paixão. Sentiu-se irremediavelmente apaixonada por certo alguém, que a enfeitiçou com seu charme e jeito de ser, fazendo-a acreditar na possibilidade de sonhar a dois, de enfeitar sua vida com projetos, de dar voltas num mundo imaginário deixando para trás um cotidiano cinza, gasto e sem sentido. Sim, Marina estava dominada pela paixão que lhe parecia ter o dom de dar vida e resplandecência a tudo que fosse opaco, colocando-a no centro da existência como um sol a brilhar intensa e infinitamente. O ser amado era seu objetivo maior e as horas da vida lhe pareciam poucas para exteriorizar tanta felicidade e expectativa. O tempo de sua paixão era a eternidade e seu espaço, uma promessa de infinito.
Marina já não suportava o que julgava ser banalidade das conversas, queria voltar-se para as lembranças do seu mundo, que lhe parecia real e prazeroso. Queria o silêncio onde só ecoasse a voz de sua paixão. Mas, como em tudo na vida, essa paixão se acabou. E, quando Marina se deu conta disso, sentiu-se como uma criança de quem se tira o doce das mãos. Parecia que uma promessa de infinita felicidade estava sendo arrancada de sua vida para nunca mais voltar. Seu mundo desmoronou em pedaços...
Hoje, passados oito longos anos, um pouco mais refeita e consolada, Marina ainda se questiona:
- Por que a paixão é maldita? Por que é tida como uma espécie de doença que toma conta de alguém, sem mais nem menos, infernizando sua vida? Será que o poetinha Vinícius de Moraes tinha razão quando sentenciou que ¨ o amor é infinito enquanto dure ¨ ?
Nesses últimos anos se tornara amarga e voltara à rotina insossa, experimentando a chamada ¨ vida real ¨ , mantendo-se bem comportada e com o coração trancado, para não correr o risco de uma nova desilusão. Em troca desse bom comportamento, próprio de uma menina ajuizada e certinha, ganhara o direito de morar sem castigos e sofrimentos na prisão por ela mesma construída. Mesmo se sentindo uma rosa sem perfume poderia festejar, embora com lágrimas nos olhos, o fato de haver recuperado a razão e o bom senso. As cicatrizes da desilusão porque passara falaram mais alto e Marina se refugiou numa vidinha rotineira, triste e amarga, mesmo sentindo saudades em seu íntimo daquele sentimento que encontrou na paixão por ela vivida.
Um grito de viver intensamente se assomou de Marina. Sua mente fervilhava em mil questionamentos:
- Por que chamamos de realidade o que a vida tem de mais sem graça e jogamos no inferno as delícias e a necessidade das paixões? Se a vida se acaba, por que a paixão também não pode se acabar?
Aos poucos, Marina foi se dando conta de que tudo na existência humana é imperfeito e passageiro e que é preciso saber aproveitar e saber viver cada momento, cada paixão. As lágrimas tomaram conta da jovem, mas desta feita sob forma de explosão de um verdadeiro e novo sentimento: o amor pela Vida!
Qual Fênix, Marina renasceu em liberdade e alegria e não tardou muito para que uma nova e avassaladora paixão tomasse conta de seu calejado coração...

cilmarmachado@yahoo.com.br

O radialista Cilmar Machado escreve toda
terça-feira neste espaço.

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