VACAS E ONÇAS
Cenas inusitadas: vacas na avenida Paulista, em São Paulo; uma onça na autopista da rodovia Anhanguera. As primeiras, de mentirinha: era gente vestida com fantasias do animal. A outra, ao contrário, muito real, embora em lastimável estado físico e emocional, foi resgatada, ferida, do espaço que conta pouco mais de meio metro entre a via e a mureta que divide a estrada em duas pistas.
A onça da espécie suçuarana estava a cerca de 73 quilômetros (perto do município de Louveira) do grupo do Greenpeace, que protestava, vestidos de vaca, contra o desmatamento da Amazônia. Os ativistas chamavam atenção para a imensidão amazônica invadida ‘lenta, gradual e seguramente’ pela pecuária.
A oncinha (de 1 ano de idade, estimada), por sua vez, certamente perdida (o desmame se dá após esse período), e possivelmente atropelada, simbolizou, ali, a destruição das matas que já foram seu território.
A espécie, cujos exemplares são solitários, necessita de, no mínimo, 20 quilômetros quadrados para sobreviver, mas o tamanho ideal de seus domínios alcança aproximadamente 65 quilômetros quadrados.
Enquanto a Amazônia vai para o brejo, com a invasão de vacas e homens ávidos de sua riqueza, as matas da suçuarana se transformam em concreto, com a construção dos condomínios da classe média, ávida por fugir da loucura e violência dos grandes centros.
Os homens constroem para si, a custo elevado, corredores de passagem - as estradas de rodagem que os levam e trazem das capitais para os aprazíveis condomínios em cidades não muito distantes daquelas -, de maneira a garantir-lhes a liberdade de circulação. Onças e animais selvagens precisam do mesmo (fugir da loucura e violência das comunidades humanas e usufruir de liberdade), mas a eles bastava deixar corredores de mata (e que cortassem em túneis as estradas dos homens, como naquela em que a oncinha foi atropelada), para que pudessem passar de uma região a outra, entre as que lhes sobraram.
HELENA DEL CIELLO E-mail: helenadelciello@uol.com.br
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