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Helena Del Ciello
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Edição do dia 16/11

O PRÍNCIPE LEÃO

Era rei, chamado de Príncipe. Mas já ninguém se lembrava do significado de uma ou de outra palavra. Ele mesmo havia esquecido sua majestade, que de fato, pessoalmente, nunca tivera. Nem jamais houve para ele um reino real onde reinar.
O único resquício de realeza, mantido da adolescência ao final da vida, e do qual não havia proveito a tirar, ao contrário, estava no medo que produzia nos que se aproximavam, escravagistas e torturadores ou amigos. Por isso, cativo desde muito jovem, seu espaço entre os humanos foi sempre pequenino: da distância que permitia a corrente com que o prendiam ou, depois, nos limites das quatro fileiras de barras da jaula, e então, para sempre, entre as fronteiras do cubículo de alvenaria que lhe destinaram.
Ali, por algum tempo, teve companhia. Não-escolhida, imposta, tão escravizada quanto ele, de qualquer forma, alguém da própria espécie com quem dividir a ausência de horizontes. Quando ela se foi, talvez para exprimir o tédio e a falta de perspectiva, ele deu para urrar na madrugada. Nós escutávamos e queríamos que todos escutassem, especialmente quem deveria e poderia tomar providências a seu favor - assim, as manifestações noturnas de Príncipe ocuparam o noticiário. Questionou-se se lhe faltaria alimento: possivelmente não, com um frigorífico a abarcar a cidade. Outras impropriedades e carências se mostravam óbvias, a mais evidente o espaço onde o mantinham.
Nem rei, nem mesmo príncipe, só um leão aprisionado, treinado à força para estripulias circenses e depois abandonado, e finalmente obrigado a passar seus últimos quinze anos confinado em local impróprio - quem se importaria?
Quando os urros cessaram, já o prenúncio do fim se anunciava. Só lhe restara a apatia. Iniciado o processo de envelhecimento, desprovido do básico, o rei sem reino nem nobreza, sem território nem liberdade, vítima da crueldade humana e de sua curiosidade infantil, entrou em depressão e adoeceu. Nem a própria morte veio naturalmente; há duas semanas ele foi sacrificado.
O rei Príncipe não era personagem de Disney, era o real leão do Horto Municipal.

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mariakaran@uol.com.br
 
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