OLHO NO OLHO
Uma amiga jovem terminou um relacionamento amoroso há pouco. Começou a se conectar à internet para passar o tempo. Descobriu as salas de bate-papo e sonhou com a possibilidade de um novo namorado, surgido dali.
O segundo internauta com quem topou (com o primeiro, um vizinho de bairro, a coisa não andou; sequer se conheceram) mora a quase 500 quilômetros de distância dela. Após duas ou três mensagens para um lado e outro, a coisa evoluiu: trocaram números e se falaram ao telefone.
Então ele sugeriu visitá-la. Deixou o trabalho no final de uma sexta-feira à tarde, tomou o carro, rodou os tantos quilômetros, encontrou-a de madrugada numa cidade para ele desconhecida. Olharam-se, ela perguntou se ele estaria cansado e, nesse caso, se gostaria da indicação de um hotel. Ele aceitou – para frustração dela, que, de fato, tinha a expectativa de um convite para passearem. Combinaram se falar por telefone no dia seguinte. Uma semana se passara entre o primeiro contato e esse encontro!
Nunca mais se viram. O nome dele não constava do registro de nenhum hotel da pequena cidade, para os quais ela ligou, no final da manhã de sábado. Não respondeu ao celular. Não deu retorno aos recados dela na caixa postal. Não reapareceu nas salas da internet. Ela chegou a ouvir-lhe a voz numa das tentativas telefônicas, portanto, não morrera.
Ela andava ansiosa por um amor. Ou, vá lá, que não fosse amor... Um amigo, então. Que nem fosse amigo... Ao menos um novo conhecimento. Da parte dele nada se sabe, que ele chegou mudo e partiu calado. Mas o ato de enfrentar 500 quilômetros rumo ao desconhecido, após uma única semana de rala comunicação eletrônica... O gesto fala por si, e diz de uma imensa ansiedade. A fuga também.
Queriam saltar etapas, esses dois. Assim como milhares de outros jovens que se comunicam pela internet em busca do amor, da amizade, da parceria (seja lá que artifícios verbais usem: “ficar”, “estar”).
O balé amoroso que as gerações anteriores dançavam passava pelo olho no olho. E nessa dança e nesse olhar dezenas ou centenas eram já a priori descartados. Uns poucos aprovados pelo olho teriam ainda de enfrentar a prova do coração e, depois, da vida íntima – e nem a passagem por todas as etapas seria uma garantia de amor = felicidade.
A variada gama de sentimentos humanos, então, se distribuía conforme aparecessem os ‘candidatos’, da indiferença à rejeição; da vontade de conhecer ao desejo sexual; do despertar da amizade até... Uma concentração de sentimentos positivos sobre uma só pessoa costumava resultar em casamento.
Agora que a fôrma parece estar pronta, há que se achar alguém que caiba nela: quero casar, que venha o cônjuge; quero transar, salta aí um amante.
A internet é farta de “massas”. Mas farta e profunda é também a frustração de constatar que a massa não serve para a fôrma.
HELENA DEL CIELLO
Helena Del Ciello, jornalista e psicóloga, escreve quinzenalmente nesta coluna
E-mail: helenadelciello@uol.com.br
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