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A modernidade afasta as pessoas

Ao ler o título acima, muitos vão pensar: “Ih, lá vem o cara de meia-idade meter o pau no progresso tecnológico!”. Nada disso. Pelo contrário, sem a internet, por exemplo, eu não sobreviveria hoje, pois é peça fundamental em meu trabalho.
Digo que afasta as pessoas umas das outras porque as atraem de diversas formas e em vários meios como o telefone, a TV, a internet...
Se voltarmos no tempo, uns 35, 40 anos, época em que já havia a televisão (em poucas residências, é verdade), vamos nos lembrar dos bate-papos noturnos que rolavam em algumas residências reunindo vários vizinhos. Nossa! Era uma delícia... principalmente para quem, como eu, era criança e adorava adormecer ouvindo as conversas dos adultos. O som deles ia diminuindo, diminuindo, e a gente acabava adormecendo se sentindo “protegido”.
Para os adultos, era a hora de colocar a conversa em dia, discutir problemas pessoais ou da comunidade como um todo. Enfim, era o momento de um contato pessoal, mesmo que ocorressem discussões algumas vezes, mas que fazia muito bem a todos.
Esses encontros noturnos rotineiros foram perdendo terreno para a TV mais ou menos na metade da década de 70, quando o citado meio de comunicação se tornou mais popular, exibindo inclusive novelas, e o custo do aparelho receptor caiu drasticamente. Antes disso, só os mais abastados o possuíam.
Caminhando mais alguns anos, chegamos aos anos 90 e 2000 (começo de século é chato pra falar em décadas, né? Falamos anos 20, 30, 70, 90. O começo é estranho...). Nessa época, surgiram o telefone celular e a internet. A maioria dos normais não sabe como conseguiu sobreviver até hoje sem essas maravilhas! Sim, são maravilhas, desde que usadas com moderação (parece final de propaganda de bebida alcoólica...). Caso contrário, fazem jus ao título acima.
Ao invés de conversar com seus amigos e parentes via MSN, Orkut ou celular, procure ter, pelo menos de vez em quando, um contato pessoal. Leve umas idéias repetidas para trocar com seus amigos (entendeu, né? Igual a trocar figurinhas...). Afinal, a modernidade tecnológica nos faz muito bem em termos profissionais, nos ajuda a aprimorar nosso conhecimento, entre outros vários benefícios. Mas, se não tomarmos cuidado, ela acaba por nos tirar um bem muito precioso: o calor humano.
Walter Quintela

O fim do “bonde carcerário”

A tomada de depoimentos de réus e testemunhas pelo processo de videoconferência, aprovada esta semana pelo Conselho Nacional de Justiça, é um grande avanço para a Justiça e a segurança pública brasileiras. Além dos benefícios diretos – a agilização dos processos e a eliminação do inconveniente e perigoso contato de testemunhas, magistrados e promotores com os réus –, ainda deverá repercutir na segurança pública. O incontável número de viaturas e os milhares de policiais militares hoje designados para a escolta e remoção de presos, poderão voltar a patrulhar as cidades. Esse inconveniente transporte não vai acabar, mas diminuirá sensivelmente.
É muito malvista pela população a insegurança causada pela presença dos camburões - ou “bondes”, como se diz na gíria do meio – cruzando as estradas e ruas para o transporte de presos rumo aos fóruns, ou mesmo entre as unidades prisionais, que o governo usa da forma mais inconveniente possível, levando o apenado a grandes distâncias das localidades onde moram seus familiares. Além da troca das audiências pessoais pelas eletrônicas, também é preciso se envidar todos os esforços para eliminar o chamado turismo carcerário, que remove os detentos para 200, 300 ou mais quilômetros de sua origem e cria dificuldades para a visitação de suas famílias, tornando-as presas fáceis de esquemas e facções criminosas.
As autoridades e a sociedade precisam colocar o dedo na ferida, se quiserem resolver a grande equação carcerária brasileira. Nas últimas décadas, as penitenciárias construídas no interior com a finalidade de abrigar os apenados da região, tornaram-se depósitos de criminosos que a região metropolitana varre para longe, como se estivesse depositando seus rejeitos debaixo do tapete. Por conta dessa política, os presos da própria região acabam também enviados a estabelecimentos distantes, de outras regiões, obrigando o estado a manter a volumosa estrutura de transporte, criada através do desvio de função de policiais, viaturas e recursos militares. Em vez de aplicá-los no policiamento, o estado os transformou em guardas de presos.
As novas tecnologias existem e foram criadas e se aperfeiçoam para melhorar a vida do homem e da sociedade. Mas o sistema carcerário brasileiro, apesar da propaganda oficial e eleitoreira, ainda é um grande ponto de interrogação. Há o consenso geral da sociedade de que o cumprimento da pena no formato hoje praticado em todos os quadrantes nacionais é nocivo porque não recupera o indivíduo. Pelo contrário, ele entra na cadeia por causa de um crime e sai de lá revoltado, sem possibilidades de reabsorção no mercado e “pós-graduado”
para o cometimento de atos muito mais graves do que os determinantes de sua prisão e condenação. Muitas vezes ainda é recrutado pelas facções, tornando-se seus escravos.
O CNJ também sugeriu ao Congresso a adoção de leis que facilitem a fiança.
Mas é preciso tomar cuidado para evitar o aumento da sensação de que a cadeia foi feita só para pobre, que não pode pagar. Também há que se ampliar as penas alternativas, já que só jogar o condenado no fundo de uma masmorra distante não resolve o seu problema e nem o da sociedade.
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves, Aspomil

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