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Helena Del Ciello
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Edição do dia 16/11

A ARQUITETURA FINANCEIRA FRACASSOU

É a afirmação de Jayati Ghosh, professora na JNU (Jawaharlal Nehru University), uma das fundadoras da Economic Research Foundation de Nova Deli. Quem paga é a população. Os sacerdotes do deus dinheiro desde sempre perfilaram-se para garantir seus lucros próprios, deles e dos banqueiros. A bancarrota não importa. Profetizaram a capacidade mágica do deus mercado regular tudo a seu tempo, garantindo-lhes lucros astronômicos. Com prognósticos quase sempre resultando em equívocos, continuam sendo incensados nos altares do chamado livre mercado que lhes garantem lucros às custas da miséria de multidões e da degradação ambiental.
O estado, bode expiatório dos fracassos financeiros, é chamado a cobrir o rombo causado por perdulários executivos que até ontem o condenavam como estorvo à excelsa livre regulação do mercado. A população paga o preço da incompetência e da ganância e, estarrecida, não entende porque o estado - com o seu, com o nosso recurso - é chamado a socorrer quem sempre lucrou às nossas custas. Sente-se ludibriada e ao mesmo tempo ignorante por não entender tamanho absurdo.
Por outro lado, os entendidos, os inabaláveis sábios da economia, os chamados executivos, têm a certeza de que o estado, por eles tão execrado, garantirá os milhões de dólares para que evitem stress descansando nos mais sofisticados balneários. Esses playboys, de Chicago ou não, brincam com o dinheiro alheio e com a vida de bilhões de pessoas, pontificam, do alto de suas cátedras, as virtudes do sacrossanto mercado que tudo resolveria, ou melhor, garantiria. Garantiu a Martin Sullivan, ex-presidente a AIG, 5 milhões de dólares pela irresponsabilidade de causar um prejuízo de 5 bilhões, a Joseph Cassano um milhão de dólares pela consultoria que ocultou a real contabilidade da mesma seguradora.
O jornalista Antonio Luiz Costa informa que Kerry Killinger, ex-presidente do Washington Mutual, recebeu 22 milhões de indenização após quase levar à falência. Se sucessor, Alan Fishman, consumou a falência e saiu com 18,5 milhões. Richard Fuld Jr. Abocanhou 300 milhões de dólares após levar à bancarrota o Lehman Brothers, enquanto os funcionários perderam 10 bilhões com a falência.
É assim que agora o Estado é chamado a socorrer, com urgência, os bancos falidos, para que seus executivos possam auferir de milhões de dólares pelo “bom desempenho”. Para a população resta o desemprego, o ainda maior arrocho salarial, o desespero. Nós, mulheres somos as mais atingidas pela perda da soberania alimentar, pelo desemprego, pela mercantilização de seus corpos e de suas vidas assim como dos bens comuns.
A folia, enquanto rendia milhões aos executivos e especuladores, exorcizou o estado como a um demônio. Quando já não foi possível disfarçar o indisfarçável, chama o estado para socializar os prejuízos. Há um limite advindo das próprias contradições do sistema até há pouco hegemônico. A crise foi sendo adiada, maquiada por falsas contabilidades dos meninos que brincaram até não mais poder.
Por isso, Jayati Ghosh defende uma “sistemática regulação estatal das finanças”, o controle público do crédito. Segundo a declaração das participantes do VII Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, reunidas na Galícia em outubro último, precisamos de um outro sistema econômico, precisamos de criar estruturas de economia solidária, de cooperativas de produção autônomas, de um banco do hemisfério sul a serviço de um desenvolvimento ecológico, igualitário e sustentável. Assim mesmo, no curto prazo, dificilmente evitará o desemprego de mais 200 milhões nos próximos 14 meses, conforme prevê Juan Somavia, diretor geral da Organização Internacional do Trabalho.

Iolanda Toshie Ide

Reajustes salariais x concurso público

Seria esse o momento de realizar concurso público e inchar ainda mais nossa folha de pagamento?
Temos quase 1.200 servidores municipais que, sendo melhor aproveitados, melhor capacitados e, principalmente, melhor remunerados, são mais do que suficientes para fazer frente às necessidades de nossa municipalidade.
Nosso funcionalismo está com seus salários defasados, pois esta administração, desde que assumiu em 1º de janeiro de 2005, concedeu reajustes salariais que não repuseram sequer a inflação deste período.
Há desrespeitos diários às jornadas de trabalho, desrespeito às datas-base de 2005 e 2006 ainda não compensados, pagamento incorreto de horas extras e tudo baseado num decreto que contem inconstitucionalidades, e que a Prefeitura reluta em corrigir. A contratação de um “grande número” de novos servidores (é o que se entende por um grande concurso ) não será nada mais do que argumento para negar reajuste salarial para nossa categoria. Mas, para os salários do próprio prefeito, vice-prefeito, secretários e vereadores os reajustes já foram garantidos, e em percentuais que variam de 58% a 83%, beirando a imoralidade.
Nossos servidores municipais não vão aceitar essa manobra. Nossa campanha salarial é prioridade para nós.
Somos totalmente favoráveis aos concursos públicos,
mas devem ser discutidos com nossa categoria, pois seremos diretamente atingidos pelas conseqüências.
Junta Governativa
do Sinfusp

ENFIM... SÓS!!

Reivindicações, direitos... Ou tudo foi alcançado ou o momento propício já foi ultrapassado. Traduzindo: passadas as eleições, as greves e ameaças de greve, que tanto espetáculo produziram, chegaram a um acordo satisfatório, sem alarde, sem panelaços, sem caminhões de som. Talvez devêssemos creditar essa calmaria ou concórdia ao respeito às diretrizes da justiça eleitoral, onde se postula que os comícios devem acabar na quinta, os debates na sexta e as carreatas no sábado que precedem o domingo da eleição. Logo, manifestações que se revistam de caráter político não podem avançar pela madrugada adentro, conturbando a ordem, menos ainda a ordem eleitoral. Em conseqüência, a população assiste, agora, sozinha, ao desenrolar de problemas mais candentes, diante dos quais não sabe ao certo o que fazer, a quem recorrer, até mesmo porque não sabe o que está acontecendo. Algumas autoridades não se cansavam de sorrir e, entre galhofas, afirmar que o “probleminha” dos bancos do Primeiro Mundo deveria ser solucionado por eles - que os provocara - e deixar que nós, brasileiros, imunes à crise, seguíssemos triunfantes rumo ao desenvolvimento. Alguns “iluminados” chegaram, mesmo, a afirmar que não existiria crise. Retração das exportações, redução da produção, planos de demissões voluntárias, demissões involuntárias, férias coletivas, perca de liquidez, aumento da cotação do dólar, queda vertiginosa das bolsas... Nada! Isso não é sinal de crise. Não? Então, diga lá o que é sinal de crise, ó, cara pálida!
Um dos grandes limitadores da compreensão humana da realidade são os chamados modelos cognitivos; também designados por modelos mentais, quadros interpretativos ou paradigmas. Termos retumbantes para significar o seguinte: todos têm uma forma de enxergar as coisas que foi moldada pelas experiências individuais e coletivas, pela cultura onde a pessoa vive, pelos desejos que cada um alimenta. É dentro dessa “forma”, desse molde que tentamos encaixar aquilo que captamos pelos sentidos e pela inteligência (intuitiva ou reflexivamente). A inteligência, a sensação e a percepção, porém, podem ser ludibriadas - algo que Freud já alardeou aos quatro ventos há décadas. De modo que, em determinadas ocasiões, uma pessoa pode olhar para a realidade e enxergar aquilo que deseja, ou não enxergar aquilo que teme ou não deseja. Existem pessoas que se esmeram tanto nessa prática que não se dão conta do autoengano em que passam a viver.
Em parte, é por isso que alguns não enxergam o caos que se desenha ou os dramas que se desenrolam ao seu redor. Tal atitude, porém, não cai bem em líderes e pessoas investidas de autoridade e poder. O líder é aquele sujeito visionário, não no sentido de alucinado, sonhador ingênuo, mas no sentido de que tem uma agudeza e perspicácia mentais acima do comum, que lhe proporciona ler os sinais dos tempos, os leves indícios do que está por vir e, desse modo, consegue se antecipar aos problemas. Como já foi destacado em outras ocasiões, líder não é aquele que consegue resolver os problemas, mas aquele que consegue se antecipar a eles e minorá-los, quando não evitar que eclodam. Consequentemente, conduzir uma guerra é importante, vencê-la é honroso, mas evitá-la é glorioso. E nem é preciso ler Sun Tzu para sabê-lo. O mesmo se pode dizer de uma crise financeira que, em verdade, apresentou-se como o ápice de uma crônica de morte anunciada.
Independentemente das razões, não fomos avisados do que estava ocorrendo ou do que estava por vir. E isso em várias frentes, ainda que os simples mortais desconfiássemos de que algo não andava bem no “front”. Ou, como diz a música, “Há algo errado no paraíso; é muito mais que contradição...” A contradição está em que os governos não titubeiam em despejar bilhões e bilhões de suas reservas financeiras para salvar um sistema que não foi saneado: algo como injetar doses cavalares de antibiótico para estancar uma infecção, mas sem remover o foco que causa essa mesma infecção; ou sem alterar as condutas de risco que propiciam e/ou alimentam a patologia. A título de exemplo: especialistas estimam que cerca de 800 bilhões de dólares seriam suficientes para acabar com a fome no mundo. Não obstante, o investimento em armamento, no mundo, está em torno de um trilhão de dólares. Prevê-se que o socorro ao sistema financeiro mundial ficará bem acima de um trilhão. Paradoxalmente, observa-se que o mesmo sistema cogitava e buscava formas de elevar o preço dos combustíveis quando o barril do dólar atingiu picos de 140 dólares, no início do segundo semestre de 2008. Porém, em outubro de 2008, quando o barril está cotado em cerca de 60 dólares, não apenas não se cogitou a redução do preço dos combustíveis como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) decidiu reduzir a produção de forma a manter o preço do barril no patamar em que se encontra.
A tudo isso se assiste sob o argumento de que faz parte do jogo, que o “mercado” - essa entidade abstrata, sem rosto e sem subjetividade, sem vontade e sem dono - é assim mesmo. Balela. O que acontece é que alguns ganharam com uma estrutura viciada e injusta e continuarão ganhando. Por que não investir nas condições de vida das pessoas, na saúde, na alimentação, na educação...? Por que o sistema vai entrar em colapso? Há que se ter coragem de afirmar que o sistema, desregulado como se encontra, é que produz o colapso. Todavia, o colapso é para a esmagadora maioria, não para aquela minoria que se dá ao luxo de frequentar leilões para dar lances de milhões de dólares, ou mandam caçar gorilas na África para completar suas coleções, ou mandam furtar quadros para suas galerias particulares...
Daí que alguns se contentam com manifestações pré-eleitorais, quando o momento é propício. Buscam a ocasião e, não, certamente, o direito. E aqueles que participam da greve podem perder seus cargos, enquanto aqueles que as organizam retomam as “negociações”, agora, no escritório daqueles que fingiam perseguir em público. Ainda que em idioma diverso, o termo “sós” (sozinhos, em português) é semelhante a S.O.S. (save our souls, em inglês - “salve nossas almas”). É do que precisamos: que nos salvem as almas (o âmago, a honra), porque muitos de nossos líderes já comercializaram nossos corpos.

Prof. André Luís Fassa Garcia
Prof. Leonides da Silva Justiniano
(Docentes do Curso de Marketing da Unilins)


 

 
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