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Cilmar Machado

A MÁSCARA ...

Cilmar Machado no dia 12 de maio de 2020 às 14:22

Foi no último sábado que tudo aconteceu. Dias finais da quarentena, antes do Dória prorrogá-la até dia 31 de maio, meio irritado com tanto tempo de isolamento, saio em busca do pãozinho de cada dia. Na padaria do Maurílio, uma enorme fila me aguardava. Devidamente mascarados, respeitando o distanciamento físico exigido, todos permaneciam em silêncio. Talvez tomados pela monotonia e solidão causadas pela permanência por tantos dias em confinamento, não se via ou sentia nenhuma expressão de alegria.  Pareciam robôs  humanos que, de forma fria, ordenada e automática, buscavam o alimento.  Chego e busco meu lugar ao final da longa e vagarosa fila. Para passar o tempo arrisco assobiar uma canção. Não dá! A máscara atrapalha  não dando vazão ao som.

Percebendo minha frustrada tentativa, a moça que estava à minha frente vira-se e diz: ¨Não dá para assobiar, não é? Tente cantarolar ...¨ Foi rindo de sua sugestão que passei a  observá-la melhor. Traços finos e delicados. O restante de seu rosto, encoberto pela máscara, era uma incógnita. Parecia ser uma mulher da chamada meia-idade, beirando os cinquenta, mas que ainda não perdera muito a beleza de sua juventude! E que olhos! ... Além de verdes-esmeralda, eram vivos e rápidos, contando a história de uma pessoa que apesar da haver passado por inúmeros problemas os fez permanecer bem despertos, alegres e acolhedores. ¨Meu nome é Natasha e o seu? ¨ , arriscou ela. ¨Marcos¨, respondi-lhe. A fila andou um pouquinho e a moça continuou: ¨Sabe, também não me acostumei muito ao uso da máscara, mas fazer o quê? É obrigatório, né? A única vantagem é que economizo no batom, pois não dá para usá-lo, pois borra tudo. ¨ , completou acredito que sorrindo.

            Daí em diante, o papo rolou solto. Desfiamos cada qual nossas fichas pessoais, embora ela permanecesse reticente ou calada quando eu quis saber seu estado civil e se tinha namorado. Uma expressão enigmática e outra vez o sorriso encoberto pela máscara se me pareceu acontecer-lhe acompanhado de um estudado silêncio.  Perguntei onde morava. Disse-me que próximo à padaria, a qual não frequentava assiduamente, só de vez em quando. Chegou a vez dela. Comprou os pãezinhos e se despediu de mim. ¨Nos veremos outra vez? ¨, disse-lhe esperançoso. ¨Talvez¨, foi só o que ouvi, seguido de um aperto carinhoso em meu braço. Aquela figura angelical desceu a Floriano Peixoto, dobrou na próxima esquina e desapareceu.

            E hoje aqui estou mais uma vez na fila da padaria, que passei a visitar todos os dias, na esperança de rever por mais uma vez aquela linda mascarada que roubou meu coração. Substitui o CORONAvírus pelo COROAvírus ...

 

cilmarmachado@yahoo.com.br

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