publicidade
O Conselho Tutelar de Lins divulgou no dia 5 uma nota de esclarecimento sobre dois episódios ocorridos no bairro Bom Viver que culminaram no registro de um boletim de ocorrência (B.O.) por abandono de incapaz. Diante da gravidade dos fatos — que envolvem uma cuidadora informal responsável por pelo menos 21 crianças em condições precárias e sem supervisão —, o caso foi levado à Polícia Civil que, agora, deve instaurar inquérito para aprofundar as investigações e apurar as responsabilidades criminais.
De acordo com o documento oficial, o primeiro incidente ocorreu no dia 21 de agosto, por volta das 15h30, quando a Polícia Militar acionou o Conselho Tutelar para atender a uma criança de aproximadamente 2 anos que foi encontrada perdida nas ruas do bairro. Ninguém no local conhecia o menino, que não falava, o que impossibilitou a localização imediata dos familiares. Diante disso, a equipe da PM fez o acolhimento emergencial provisório e deixou os contatos do plantão. Por volta das 18h30, uma mulher que se identificou como cuidadora entrou em contato, informando que a criança havia aberto o portão e saído sem que ninguém percebesse. A genitora compareceu para o desacolhimento e alegou que não havia conseguido vaga em creche, precisava trabalhar e, por falta de opção, havia deixado o filho com essa cuidadora.
Dias depois, no entanto, uma denúncia anônima recebida pelo Conselho Tutelar informava que crianças estavam sendo deixadas sozinhas com frequência na mesma residência indicada anteriormente. Ao se dirigirem ao local, os conselheiros constataram a veracidade das informações: crianças com idades entre 1 e 6 anos estavam completamente desassistidas, sem a presença de qualquer adulto responsável. A cena gerou forte comoção, pois um menino de apenas 6 anos era o responsável por cuidar das menores. Em um dos momentos, ao tentar pegar uma das crianças, que chorava intensamente, o menino acabou derrubando-a.
As conselheiras chamaram a PM. Cerca de 15 minutos depois, a filha de 17 anos da cuidadora chegou ao imóvel, seguida pela própria cuidadora, que retornava depois de ter ido buscar mais crianças nas escolas das imediações. Ao ser questionada, a mulher afirmou que havia deixado a adolescente responsável pelo grupo, mas, segundo suas próprias palavras, “pra variar a filha havia saído”. A mulher trazia 5 crianças em seu carro e confessou que cuidava de 21 no total.
Em razão do flagrante, todos os envolvidos foram levados à delegacia e um boletim de ocorrência (B.O.) foi registrado pelo crime de abandono de incapaz. As responsáveis pelas crianças alegaram, novamente, a falta de vagas em creches ou projetos sociais, afirmando que já integram a lista de espera do município.
A nota assinada pela coordenadora do Conselho Tutelar, Eliane Betti, ressalta que o órgão requisita frequentemente vagas em creches e projetos para atender a demanda das famílias, mas sempre recebe a informação de que não há disponibilidade no momento e que os nomes permanecem na fila de espera. “Não é prerrogativa do CT ‘criar’ vagas em creche ou projetos, mas, sim, requisitar aos órgãos competentes o que já é sistematicamente feito por nós”, destacou a coordenadora.