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Faleceu na terça-feira, 19, aos 80 anos, Waldirene Nogueira, personagem histórica de Lins que ganhou notoriedade nacional nas décadas de 1970 e 1980 por sua trajetória ligada à identidade de gênero, em uma época marcada pelo preconceito e pela falta de compreensão sobre o tema. Foi primeira mulher trans a passar por cirurgia de redesignação sexual.
Waldirene viveu grande parte da vida na rua Nove de Julho, Vila Alta, endereço tradicional da família em Lins. Atualmente, estava em Ubatuba, na casa de familiares, onde faleceu.
O velório foi realizado ontem em Lins e o sepultamento ocorreu às 17 horas no Cemitério da Saudade.
Conhecida nacionalmente por ter realizado uma das primeiras cirurgias de redesignação sexual divulgadas no Brasil, Waldirene se tornou símbolo de coragem e resistência em um período em que o assunto ainda era tratado como tabu. A cirurgia foi realizada em dezembro de 1971, no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, pelo cirurgião plástico Roberto Farina.
Sua história ganhou destaque em diversos veículos de comunicação do país e também no exterior. No jornal Debate, ela foi personagem da coluna “Pessoa”, escrita pelo jornalista Moacyr Amaral (falecido), em 7 de abril de 1996.
Na entrevista, Waldirene relembrou a infância em Lins e contou que desde muito cedo não se identificava com o gênero masculino. “Eu era homem no nome, no documento, no entanto, a cada dia me sentia mais mulher”, declarou à época.
Ela também relatou as dificuldades enfrentadas durante a adolescência, período em que sofreu preconceito e discriminação, situação que atingiu inclusive sua família. “O preconceito e a discriminação foram terríveis na minha adolescência. Não só eu, mas também minha família sofreu muito”, afirmou.
Nascida em uma família com nove irmãos, Waldirene se tornou uma figura bastante conhecida em Lins. Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo da trajetória, era lembrada pela personalidade forte e pela sinceridade com que tratava sua própria história.
A trajetória de Waldirene marcou uma geração e ajudou a abrir espaço para discussões sobre identidade de gênero e respeito à diversidade em um período em que o tema ainda era cercado de silêncio e incompreensão.
O pedido de alteração do nome foi negado inicialmente, e ela permaneceu registrada como Waldir por décadas. A retificação na certidão de nascimento só ocorreu em 2010, quando tinha 65 anos. O novo RG foi emitido em 2011.