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Manguinha, o homem que aprendeu com o pai a abrir caminhos. “Desde pequeno já andava com o meu pai em cima de uma máquina. Eu falei: pai, não quero estudar, quero fazer o que o senhor faz”

no dia 23 de abril de 2026 às 12:42
Atualizada em 23 de abril de 2026 às 12:46
- Há mais de 30 anos, Manguinha preparando a base da avenida Maestro Guido Belon para receber assalto (foto: Arquivo pessoal)

Há 39 anos, Reginaldo Araújo (Manguinha) sobe em uma máquina pesada com a mesma naturalidade com que outros pegam no volante de um carro de passeio. Mas, para ele, não é apenas um trabalho. É uma questão de DNA, orgulho e amor pela cidade onde nasceu e vive.

Em uma conversa descontraída, Manguinha revela que sua história com as máquinas começou muito antes de entrar na Prefeitura, em 1988. A paixão veio de berço, guiada pelo pai, Antônio Araújo, operador de máquinas que dedicou a vida inteira ao serviço público. “Desde pequeno eu já andava com o meu pai em cima de uma máquina. Eu falei: pai, eu não quero estudar, eu quero fazer o que o senhor faz”, relembra.

Foi o próprio pai quem abriu as portas, com a ajuda do então chefe, Geraldo Mazzeto. A promessa foi cumprida: Reginaldo entrou como motorista e, após um ano de aprendizado e adaptação, conquistou o lugar que era seu sonho — o comando das máquinas pesadas. Hoje, ele domina motoniveladora, trator de esteira, carregadeira e escavadeira, com diplomas que comprovam o aperfeiçoamento constante. “O começo da minha carreira foi a motoniveladora. Depois fui para carregadeira, trator de esteira, e o último curso foi de escavadeira”. Ele guarda com carinho na estante de casa uma réplica da primeira máquina que operou — um símbolo da trajetória construída com suor e dedicação.

Quem vê Reginaldo comandar os equipamentos modernos, climatizados e com comandos hidráulicos, não imagina as dificuldades do passado. “Naquele tempo era tudo mecânico, não tinha ar, era sol, chuva, poeira. Você encarava tudo.” E encarar tudo sempre foi sua marca.

Ele esteve nas situações mais desafiadoras. Lembra com nitidez dos dias de chuva intensa. “Sofri muito no Tangará e Santa Maria. Tinha dia que a gente fazia a rua e no outro a enxurrada já tinha levado tudo.” Também enfrentou desafios no Bom Viver, Jardim Bandeirante, Jardim União e na entrada da Santa Terezinha. Nas estradas de chão, como a Lins–Guaimbê, foram muitas noites “maçando barro” para garantir o acesso dos veículos.

O susto mais marcante foi na rua Irineu Coelho, durante a construção de uma galeria. “O barranco abriu comigo. Eu desci com a escavadeira lá embaixo. Quando vi que trincou, só virei a lança, não deu nem tempo. Desceu tudo.” O episódio virou notícia e ficou marcado na memória, mas não o fez recuar. “Quantas vezes eu desci dentro do rio. Eu ficava louco mesmo”, brinca, lembrando de uma ocasião em que foi parar dentro do córrego em frente à rodoviária e ouviu pelo rádio o locutor anunciando: “a máquina caiu dentro”.

Essa coragem e entrega são reconhecidas nos corredores da Prefeitura. Hoje, nas máquinas mais pesadas, ele divide a responsabilidade com o colega Galeguinho. “A pegada brusca mesmo é nós dois: motoniveladora, escavadeira, é eu e ele.”

A rotina começa cedo. Cinco e meia da manhã já está de pé. Antes, levava marmita e almoçava no serviço; hoje, vai para casa na hora do almoço. Mas a disponibilidade sempre foi total. Reginaldo já virou noites, como no acidente com um caminhão e uma locomotiva na Lins–Tangará, quando ficou das quatro da tarde às oito e meia da manhã seguinte fazendo aterro e abrindo passagem para o guincho conseguir fazer a manobra nos trilhos.

Nascido e criado em Lins, Reginaldo não esconde o orgulho: “Eu tenho orgulho de ser linense e o time que eu torço é o Linense, não torço para outro.” Para ele, participar da transformação da própria cidade é mais que um ofício: “Eu tenho muito orgulho de fazer a coisa aqui para Lins. Porque a gente é nascido, criado aqui, então a gente quer ver a cidade crescer.”

Agora, com quase 40 anos de serviço público e os documentos da aposentadoria já encaminhados, Reginaldo ainda pensa no futuro. “Se eu vir uma oportunidade e a saúde, graças a Deus, eu tenho, a gente pode fazer alguma coisa para Lins ainda”, diz, com o brilho de quem sabe que sua história com as máquinas e com a cidade ainda tem novos caminhos para desbravar.

 

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