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Fabinho, o guardião do silêncio: 27 anos de respeito e dignidade. Coveiro há quase três décadas, Fábio Henrique Médici testemunhou a dor, a pandemia e o crescimento da cidade

no dia 23 de abril de 2026 às 16:20
- Fabinho trabalha atualmente no Cemitério São João Batista (foto: Emerson Secco)

No momento exato da despedida, poucos olham para ele. Mas ele está lá. Sempre. De pá na mão, olhar sereno e gestos precisos. Fábio Henrique Médici, o Fabinho, como é conhecido, é coveiro no Cemitério Municipal de Lins há 27 anos. Aos 49, casado e sem filhos, ele encontrou no ofício que muitos evitam uma missão silenciosa: acompanhar, com carinho e discrição, a passagem da matéria para o mundo espiritual. “A gente tenta transmitir a melhor forma de carinho, porque ali é um momento tão difícil. Essa é a despedida da matéria para o lado espiritual”, conta.

O cargo de coveiro foi extinto oficialmente por uma lei municipal na década de 90. Criou-se outra nomenclatura, mas a função, segundo Fabinho, continua a mesma. Ele é funcionário público e faz de tudo: prepara o túmulo, realiza inumações e exumações, abre e fecha sepulturas. Tudo em silêncio, respeitando a dor de cada família. “A gente tem que se comportar de uma maneira mais sutil, sempre respeitando e acompanhando a dor do próximo.”

Ele observa, no entanto, que o movimento de familiares diminuiu. “Antigamente era muita gente que vinha. Hoje, até de pessoas conhecidas, o número de familiares e amigos é menor.”

Os números no cemitério mudaram drasticamente. Quando Fabinho começou, eram cerca de 150 a 180 sepultamentos por ano. Hoje, o número já é exorbitante: chega a 700, quase 800 por ano, somando os sepultamentos no Cemitério São João Batista e no Cemitério da Saudade.

O período mais triste, segundo ele, foi a pandemia de Covid-19. “Foi uma loucura. Chegou o dia que a gente fez 12 sepultamentos num dia. E não era só do município de Lins. Chegava gente de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Londrina. O que você pensar, chegava aqui. Porque a maioria dos familiares estava no município e queria ser enterrado por aqui.” O trabalho foi de segunda a segunda, sem descanso. Um período do qual ele diz nunca esquecer.

Apesar da dureza da rotina, Fabinho fala de Lins com um raro brilho nos olhos. Nascido e criado na cidade, ele a compara a um berço. “Eu fui nascido aqui. Eu fosse uma criança nascida dentro de um berço. Porque acho uma cidade tão bonita, tão maravilhosa. Minha infância foi todinha aqui. Pode ter certeza que eu me diverti em Lins.”

Ele vê a cidade crescer — mesmo passando os dias “trancado” dentro do cemitério. E aprova o que vê. “Hoje, se depender de mim, referente ao que está sendo feito, está de parabéns. Principalmente em termos da Prefeitura, do trabalho que o pessoal está executando, as condições que estão oferecendo para a gente, está perfeito.”

Ele lamenta apenas a falta de pequenas indústrias no município, mas demonstra confiança: “Com o tempo elas virão.”

Fabinho é um daqueles personagens que ninguém vê, mas sem os quais Lins não seria a mesma. Ele, como tantos anônimos na multidão, faz a cidade acontecer. Em silêncio. Com dignidade.

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